Não nego as facilidades da tecnologia, mas este é um texto livre de IA exceto pela imagem que o ilustra; portanto, pode conter erros humanos.
Em épocas de modificações legislativas e operacionais em torno do radioamadorismo, o surgimento de novas tecnologias, novos equipamentos e com isso novas formas de ver o radioamadorismo, precisamos de um QRX para pensar: qual o radioamadorismo que queremos? Sem um consenso da comunidade radioamadora é difícil até mesmo para as entidades reguladoras entenderem como podem se movimentar em direção a um norte. No Brasil, neste momento, muitos radioamadores estão até furiosos (e eu sou um deles) com as “novidades” para o radioamadorismo propostas – ou impostas “goela abaixo” – pela Anatel, em total desacordo com a realidade do mundo real dos radioamadores. Porém, quando aberto o debate por esse motivo, surgem os mais diversos grupos pensando diferentes formas de radioamadorismo. Se de um lado reclamam pelos poucos radioamadores que temos, outro lado, a reclamação é sobre os “apertadores de PTT” aqueles que não encontraram o gosto pelo rádio nas experimentações eletrônicas ou fabricação de antenas, mas se dedicam a outras coisas, como falar e coordenar rodadas, competir em concursos ou até as questões administrativas e políticas do rádio – sim elas existem – nossas instituições estão ai e precisam ser geridas.
Fato e consenso é que o radioamadorismo surgiu da experimentação, abriu o caminho para muitas tecnologias que utilizamos hoje e foi se transformando ao longo das décadas, sendo o mais adotado para a comunicação modal até a primeira década do século passado, era dos centelhadores, depois descobrindo as ondas curtas, embarcando nos novos transistores dos anos 60 embalados pelas rodadas nas repetidoras, chegando até o inicio de um grande conflito com a era da internet nos anos 2000 onde as coisas parecem estar se misturando.
Em números, a narrativa de que “os radioamadores estão desaparecendo” carece de fontes seguras de dados: No Brasil por exemplo, hoje, temos mais que o dobro de licenciados do que tínhamos nos anos 80 (Fonte: Anatel). Inegável também que os novos modos digitais, principalmente o FT8, é uma das portas de entrada do radioamadorismo, somando-se a isso, o que tínhamos até poucos anos atrás: Os rádios chineses, baratos e livres de taxa, que infelizmente hoje são taxados e ainda regulados por homologação.
Já quanto a dizer que os radioamadores de hoje são apertadores de PTT, em parte até pode ser real se visto da precariedade tecnológica de antigamente mais no estilo “quando eu cheguei aqui isso tudo era mato”, mas vem acompanhando uma série de evoluções da própria eletrônica que impossibilita a formação de indivíduos como era antigamente, tudo tornou-se muito mais longe para as pessoas comuns: os componentes que antes eram baratos e podiam ser soldados até por uma criança usando um simples ferro de solda e estanho, hoje são micros, nanos e requerem equipamentos específicos e técnica aprimorada para sua manutenção e montagem. Já não existem mais as lojas de eletrônica de antigamente (ahh que saudade da Eletrônica Shop, da Skina, da Eletrônica do Professor, da Revista Saber Eletrônica, do Instituto Universal Brasileiro), essas evoluções acabaram impossibilitando as experimentações como eram feitas antigamente – até um capacitor variável novo para fazer uma simples galena é difícil de encontrar hoje em dia. Com a chegada da computação e a transformação da eletrônica, tudo aquilo que fazíamos à “ferro e estanho” transformou no que conhecemos hoje pela “cultura maker”, ou DIYng (Do It Yourself), se os decanos se encantavam com válvulas enormes, hoje, a nova geração discute sobre microchips cada vez mais potentes, processadores, em Raspberry e Arduíno, e em softwares para atender as demandas que antigamente eram tratadas analogicamente.
Mas voltando um pouco antes da geração dos transistores, ali nasceram os primeiros empreendimentos comerciais dentro do radioamadorismo que também ajudaram a transformar a realidade do indivíduo radioamador. Os primeiros rádios japoneses foram lançados neste período, entre eles os das três marcas mais famosas que temos até hoje: A Trio Corporation – hoje Kenwood (1946), a Yaesu (1956) e a Icom (1964). Neste momento, os antigos construtores, que muitas vezes tinham que fabricar seus próprios componentes eletrônicos porque não havia lojas, passaram a serem mais operadores e menos técnicos e os rádios muito mais confiáveis e estáveis, proporcionando uma mudança no paradigma do radioamadorismo e impulsionando novas características e desafios em atividades que tinham outro caráter até então, como os próprios concursos. Com o choque geracional dos anos 2000, a coisa ficou ainda mais acentuada, transformando um transceptor muitas vezes em uma “caixa preta” e causando grande revolta para os antigos radioamadores que passaram maiores dificuldades para consertar seus próprios rádios ou até construí-los do zero (quem lembra do ararinha), daí surgiu a máxima de chama-los de “apertadores de PTT” – Mal sabem eles que a maioria usa headset! Então, no que pode-se entender olhando para a história, é de que o radioamadorismo foi se transformando e está em constante movimento, adaptando-se as novas realidades e ainda assim atraindo muitos novos adeptos ao longo dos anos.
Bom ou ruim, esse mesmo movimento pode ser observado em muitos outros mercados, como o da própria computação que hoje se mistura ao radioamadorismo, se não tivéssemos grandes visionários e empreendedores como Steve Jobs, por exemplo, talvez ainda os computadores ou os celulares não estivessem em praticamente todas residências do mundo e, talvez, um pequeno grupo de “nerds” ainda discutiria sobre ISA, PCI, LPT, VLB, AT e outras coisas que ficaram nos anos 90, graças a popularização da tecnologia. Não é mais ou menos isso que a gente vê no radioamadorismo?
Então, se antes falávamos em comunicações praticamente impossíveis de serem realizadas, hoje temos cluster e fazemos bons DX com Europa e América do Norte com certa facilidade, principalmente em épocas de bom ciclo solar, o que acabou impulsionando a era das competições de radioamadores, que inegavelmente são um dos nichos de maior retenção de colegas no hobby e, que agora, pretendo neste artigo, sem querer me elevar ao status de um Jobs ou Gates, levar a uma profunda reflexão: pois estamos no ano de 2026 e ainda enviamos arquivos “cabrillo” para organizadores de contests, recém nossos rádios começaram a vir com conexão USB, então onde ficou o pioneirismo tecnológico dos radioamadores? Assim que novos mercados surgiram, não conseguimos mais acompanhar eles e o mundo?
Para entrarmos mais profundamente neste assunto, pretendo fazer aqui um paralelo justamente com o mundo da computação, pois é onde tenho mais vivência além do radioamadorismo. Conheci os computadores na era do 486 e do recém lançado, o espetacular, o magnânimo, o cobiçadíssimo AMD K6. Ahhh o Windows 95, com Plus, que trazia o pacote Science para a área de trabalho, Leonardo Da Vinci, o labririnto como protetor de tela, Internet Explorer (volta que deu problema), entre outros. Comparando-se com a história do radioamadorismo, talvez eu estivesse entrando justamente nos anos 60 do rádio, quando tomou fôlego os novos lançamentos e os empreendimentos neste mercado. Vi nascer e crescer a internet, o protocolo HTTP, o HTML, o Javascript, vi linguagens de programação como o Clipper, o Cobol, o Clarion ( primeira linguagem a dar suporte a mouse nativo acredito eu), o Delphi, o PHP, ou seja, tecnologias que nasceram, desenvolveram e algumas delas morreram à medida que outras tecnologias foram surgindo e substituindo as anteriores. Já olhando para o radioamadorismo, quando retornei para o rádio em 2018, me pareceu que o mundo tinha parado nos anos 90, me deparei com um cenário com os radioamadores um tanto quanto apegados ao “que já se fazia”, aos protocolos estabelecidos há muitos anos, sem atualizações, sem incentivo para mudarem as formas e os meios, ou seja: tudo demorava – das licenças às competições. Voltando ao cabrillo, que ao meu ver é exemplo máximo da ineficiência qual nos colocamos, você competia, gerava um arquivo no software Windows, enviava seu log por e-mail, esperava uma correção prévia do formato, depois esperava o resultado provisório, depois esperava o resultado oficial, que culminava em quase chegar na data da próxima edição daquela competição, no outro ano, e isso estamos falando de 2018 quando já se falava em IA – Não de 1990. Não é exclusividade deste formato, há também o ADIF, formatos de troca de dados que só são utilizados no meio do radioamadorismo, portanto, sem suporte nativo em nenhuma linguagem de programação existente, em contrapartida a XML, JSON e tantos outros formatos que poderiam transformar a realidade do processamento de dados nas diversas aplicações de radioamadores em 100x mais rápidas, hipoteticamente. Foi pensando em transformar esta realidade que comecei o projeto HamPass, mas não é da plataforma que que quero falar hoje, é de algo muito maior.
De 1990 até hoje, paralelamente ao radioamadorismo, a computação deixou de ser um hobby de aficionados, de “nerds”, e passou a ser algo comum para qualquer pessoa, não porque todos conhecem o que é um “pente de memória” ou uma conexão VGA, mas porque um computador tornou-se quase um eletrodoméstico tal como um liquidificador ou um ar-condicionado, que você chama alguém para instalar, depois liga, aumenta ou reduz a temperatura e está tudo bem, você não precisa saber nada sobre o ciclo de compressão e a expansão de um fluido refrigerante, só liga e utiliza. Talvez, seja essa justamente a defesa que há de pensarmos agora, à ser feita para que tenhamos um crescimento do nosso hobby, tanto em números quanto em tecnologia, pois uma questão está intrinsicamente ligada a outra, sem possíveis clientes empresas não nascem, as que existem não inovam, não há motivação alguma. Quando falamos em troca de provas, novos meios de ingresso, é fundamental que antes levemos em conta o que queremos para o radioamadorismo, um hobby de poucos, aficionados, tecnicamente capazes, mas – repito – poucos? Vamos continuar a representar menos de 0,31% da população no melhor dos cenários (Japão). Ou defender uma nova perspectiva, onde há um átrio, onde o acesso é livre para todos e que por encontrarem-se motivados a melhorarem suas estações e poderem competir em outras bandas e modos passem a ingressar no grande templo da eletrônica e até, quem sabe, um dia a desenvolver novas tecnologias? A experiência histórica nos diz que a tecnicidade demasiada como pré-requisito nunca foi atrativa, até pelas questões das mudanças já supracitadas e ainda nos trouxe a um hobby do ostracismo à tecnologia, que foi o pior de todos os cenários, servindo como uma peneira, que somada a uma grande burocracia estatal, formam uma grande barreira de entrada para novos adeptos ao radioamadorismo.
Voltando ao mundo da computação, acessível a todos não pela forma que se constituem os circuitos, mas pela disposição qual a comunidade se organiza entre “gamers”, “devs”, criadores de conteúdo e muitas outras áreas, a tecnologia evoluiu drasticamente, já não temos mais “cabrillos” no mundo da computação, não são sequer tolerados pela própria cultura que envolveu esse setor. Hoje, o setor de TI é um grande gerador de mercados milionários a todo momento, eles são importantes não só pelo dinheiro objetivamente – que também é importante, pois gera emprego e renda – Mas também suscitam a criação de novos produtos com novas tecnologias e trazem desenvolvimento para a sociedade como um todo.
Eis a palavra chave de toda discussão: “geração de valores para a sociedade”. E vamos pensar: Quais bons valores o radioamadorismo contribui para a sociedade hoje? Estamos entregando inovação? Tecnologia? Na era da Starlink e de outros meios de comunicação, serão os rádios o “único meio que nunca falha?” ou até nisso já estamos defasados?
É tempo de pararmos e pensarmos: Qual o radioamadorismo que queremos, para depois interpelar, de forma correta e afirmativa nossas entidades reguladoras rumo a um norte corretamente orientado.




